Nossa História

 IGREJA DE NOSSA SENHORA DO CARMO – UM POUCO DE SUA HISTÓRIA

APRESENTAÇÃO

    O Complexo Arquitetônico do Carmo é um dos mais notáveis da capital paraense, isso deve-se a sua esplêndida arquitetura assim como a sua grande importância histórica construída na catequese aos índios, na luta dos cabanos, nos conflitos religiosos e políticos da época de sua gênese. 
    A nós, privilegiados detentores desse patrimônio, cabe lutar para a preservação e manutenção desse tesouro artístico que temos, fazendo com que essa história continue a ser contada a nossos filhos, netos e a tantas gerações com todo o encanto que merece.

LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA

    O Complexo Arquitetônico do Carmo encontra-se localizado no Centro Histórico de Belém(capital do Estado do Pará), no Bairro da Cidade Velha.
    O sítio está compreendido a oeste, pela Passagem São Boaventura (antiga Ladeira do Carmo,às margens do Rio Guamá ), a norte pela Travessa Dom Bosco, a leste pela rua Dr. Assis (antiga Rua do Espírito Santo) e posteriormente, ao sul por casarios da Travessa Gurupá. 
Diversos meios de transportes fluviais, por diversas linhas de coletivos, transitam pelas adjacências do complexo mostrando uma paisagem característica de ruas estreitas, pavimentadas com paralelepípedos revestidos de asfalto e calçadas em pedras de lióz, definindo o meio-fio para o escoamento das águas pluviais.
    O entorno é constituído de casarios térreos e sobrados coloniais significativos, ocupados por uso residencial e comercial. A proximidade com o Rio Guamá, com vários trapiches para embarcações que efetuam transportes de mercadorias e pessoas, entre o interior do Estado e a Capital, constituindo grande potencial turístico e paisagístico.

 

HISTÓRICO DA EDIFICAÇÃO

    Achando-se em São Luiz do Maranhão em 1624, data comprovada por documentos fidedignos, Frei Francisco da Purificação, Comissário Provincial dos Carmelitas do extremo norte do Brasil (Ordem subordinada e conexa com o Capítulo Provincial de Lisboa), recebeu uma carta convidando-o para que fosse fundar um convento na cidade de Belém, Estado do Pará.
    Os Carmelitas Calçados estabeleceram-se em Belém, em janeiro de 1626, para a cateczação de índios e filhos de soldados , instalaram-se primeiramente em um sítio, dentro do qual erguendo uma modesta capela.
    Depois , em 31 de maio de 1627, o Capitão Mor da Capitanhia do Grão-Pará na época, Bento Maciel Parente e seu Filho do mesmo nome, Capitão de Infantaria, fizeram a doação aos Carmelitas de uma casa de campo, de taipa-de-pilão, situada à Rua do Norte (atual Trav. Siqueira Mendes), num terreno alagadiço, localizado próximo aos "baixos da Juçara". De posse desta nova casa, transferiram sua residência e junto a ela construíram uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo, usando a casa como convento.
    O 1º Vigário Prior deste convento foi o mesmo do Maranhão, Fr. André da Natividade.
Mais tarde, em 1690 , já em ruínas, a casa e a capela foram demolidas , começando, no mesmo local , a edificação de um novo convento e uma nova Igreja .Coube ao Governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho lançar solenemente os alicerces do novo templo,em pedra e cal.
    As obras seguiram até 02 de julho de 1696, quando foram interditadas pelo Bispo, pois lá encontrava-se enterrado um excomungado. Em vista disso, os     Carmelitas apelaram para a Justiça Real. De Lisboa veio decisão favorável à Ordem somente em 21 de abril de 1700, a partir daí a construção teve o curso normal de acordo com os recursos da época..
    Essas novas instalações estariam concluídas em 1708 em sua primeira fase, sendo a segunda fase concluída em 1721.
    Vem desse tempo a notícia veiculada pela "Gazeta de Lisboa", nº 45, de 06 de novembro de 1721, que diz o seguinte: Chegarão cartas da Capitanhia do Pará com a notícia de haverem os religiosos da Ordem de Nossa Senhora do Carmo edificado uma nova igrea, pouco distante da antiga, que tem na cidade de Belém, e haverem transladado para ela em 15 de julho deste ano com uma soleníssima procissão o Santíssimo Sacramento da Eucaristia e a imagem de Nossa Senhora do Carmo, celebrando com três dias de festa solene a transladação, a que assistirão todo clero, religiosos, nobreza e povo, estando em todo este tempo exposto o Santíssimo com o Jubileu, feito por ordem e direção do Reverendíssimo Frei. Victorino Pimentel, Vice-Provincial da mesma ordem em todo Estado do Maranhão,     Comissário do Santo Ofício, Deputado da Junta das Missões, Provisor e Governador daquele arcebispado" .
    Realmente, após aquela primitiva instalação Carmelita em Belém, como vimos, esta segunda, teve características próprias de uma Casa Religiosa, à altura da prosperidade dos Carmelitas, tendo a maior significação religiosa e social na época, em Belém do Pará.
    Segundo relatam as crônicas da época, a Igreja já se apresentava melhor paramentada, graças ao contínuo esforço dos padres.
    No decorrer do século XVIII, por volta de 1766, outra vez, os Carmelitas demoliram seu segundo templo, para construir a atual Igreja do Carmo, porém, não totalmente. O altar mor é preservado e incluso na nova igreja. Nele se admira até hoje o estilo barroco italiano de importação portuguesa, predominante nas igrejas da época, modificado posteriormente pelas influências locais.
    Nesta obra, tomou a frente das obras já em andamento o arquiteto-régio Giuseppe Antonio Landi , autor das novas molduras e fachada da definitiva Igreja de     Nossa Senhora do Carmo, em alvenaria de pedra.
    Na fachada, com a ajuda dos fiéis, foi encomendada toda cantaria em pedras de liós talhadas, vindas em caixotes de Portugal. 
    Para a execução desse empreendimento, tiveram os Carmelitas a ajuda considerável do Coronel Hilário de Morais Bittencourt, cametaense ilustre que muito contribuiu para o êxito das obras.
    A inauguração aconteceu em 23 de julho de 1777, de forma inacabada, pois não havia concluído à tempo os altares laterais e a Capela da Ordem terceira, concluídos apenas em 1784.
    Os carmelitas foram, durante muito tempo, possuidores de bens oferecidos pelos seus fiéis e no decorrer do século XVII – ao lado dos Mercedários (1639/40) e Jesuítas (1653) – possuíram grandes propriedades, engenhos, lavouras, criação de gado, olarias, tornando sua ordem próspera e promissora.
Essa nova edificação teve a maior significação para a vida religiosa e social da capital paraense, pois, a essa altura apenas a Igreja da Companhia de Jesus de São Francisco Xavier enriquecia Belém, na praça da Matriz. Por isso, a Igreja nove anunciada pela Gazeta de Lisboa e atribuída aos devotos de Nossa Senhora do Monte do Carmo, tinha méritos especiais. Somente a obra Jesuíta existia, dedicada ao Apóstolo das Índias, mais tarde denominada de "Santo Alexandre", nome dado ao primitivo "Colégio da Companhia".
    A velha instalação, segundo Ernesto Cruz, foi mausoléu de várias personalidades da vida política paraense, entre eles: o Capitão Pedro de Albuquerque, o Governador Francisco Coelho de Carvalho, Ouvidor Geral Matheus Dias da Costa e o presidente cabano Félix Malcher.
Durante o governo do presidente Jerônimo Francisco Coelho, eram bem poucos os frades residentes no antigo Convento. Mais tarde aquelas instalações seriam ocupadas pelo "Colégio Paraense" e para o Asilo de Órfãs Desvalidas. Depois serviu de Hospital Militar e de Seminário Menor, à época do Bispo D. Macedo Costa. Neste século, a obra carmelita esteve em mãos dos Maristas do Padre Champagnat que depois a entregaram aos salesianos de D. Bosco.

 

A ORDEM DE NOSSA SENHORA DO MONTE DO CARMO

    A origem da Ordem dos Religiosos de Nossa Senhora do Monte do Carmo é antiquíssima, sua história começa no Monte Carmelo em Israel, no século XIII, os Carmelitas tem como característica em sua vida espiritual: "servir a Deus na pessoa dos irmãos, sobretudo com os mais necessitados e pobres, é um projeto atualizado segundo os modelos da Virgem Santíssima e do Profeta Elias, que nos tempos do Antigo Testamento habitou o Monte Carmelo". 
    Atualmente a Ordem do Carmo, encontra-se presente em todo o mundo, e é representada pelos frades e monjas da clausura, pelas irmãs de vida apostólica e pelos leigos associados às Ordens Terceiras e às confrarias carmelitanas. Os carmelitas chegaram ao Brasil no ano de 1580, e se estabeleceram na cidade de Olinda, em Pernambuco. Hoje estão presentes em vários estados brasileiros: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Brasília, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Paraná e Rondônia, nestes lugares eles tomam conta de paróquias e santuários.

A CHEGADA AO BRASIL

    Quando Portugal decidiu colonizar a Paraíba, determinou que a armada ao sair de Lisboa, fosse acompanhada dos frades da Ordem de Nossa Senhora do Monte do Carmo, para que essa Ordem cooperasse com a propagação da fé católica nos sertões brasileiros. 
    A frota já encontrava-se em frente ao recife, quando um grande temporal sobreveio, forçando a comitiva a aportar em Olinda. O governador da Capitania de Pernambuco, Jeronymo de Albuquerque Coelho, desejoso de que os Carmelitas permanecessem em sua capitania, fez doação aos frades de uma modesta ermida dedicada a Santo Antonio e São Gonçalo, num pequeno promontório de Olinda. Aí os frades estabeleceram-se e fundaram o Carmelo Brasileiro, de onde saíram os primeiros missionários carmelitas para cristianizar os silvícolas da Amazônia. 

OS CARMELITAS NO PARÁ

    Em 1615, parte de Pernambuco a expedição de Alexandre Moura, que auxiliaria a Jeronymo de Albuquerque na reconquista do Maranhão do poder dos franceses, levando na função de capelães do presídio, os frades carmelitas André da Natividade, futuramente o primeiro Vigário da Igreja no Pará, e Cosme da Anunciação, que juntos fundariam a 20 de fevereiro de 1616 o Convento no Maranhão. Em 1624, Frei Francisco da Purificação, vindo de Portugal, assume no Maranhão a função de Vigário Provincial e é convidado pelo governador da Capitania do Pará, Capitão-Mor Bento Maciel Parente, a fundar casa nessa Capitania. Todavia, só em 1626, os Carmelitas fixar-se-iam no Pará. 
    Os Carmelitas ficaram no Pará durante 225 anos: parte do século XVII, por todo o século XVIII e parte do século XIX. Destacaram-se pela assistência social, moral e religiosa, dispensada aos silvícolas e pelo empenho na educação. Criaram em seu convento a primeira escola elementar de Belém, onde ensinavam os filhos dos soldados e índios de todas as idades. 
    O Colégio de Filosofia e Teologia que funcionava no convento do Maranhão foi transferido para Belém e a 25 de Junho de 1727, o papa Bento XIII concede a Vigairaria do Grão-Pará e Maranhão o privilégio de conceder o grau de doutor aos seus membros, mestres em Teologia.
    Os Carmelitas deram a Diocese do Pará o seu primeiro bispo – Dom Frei Bartolomeu do Pilar – nomeado a 4 de Março de 1719, sagrado em Lisboa a 22 de Dezembro de 1720, chegando a Belém a 22 de Dezembro de 1724. 
    A Vigairaria do Carmelitana do Maranhão e do Pará, começou a sofrer os reflexos negativos da política pombalina a partir de 1755, quando os missionários perdem o direito de administrar sobre os índios e passam a atuar nas aldeias, como simples párocos. Em 1759, ocorre a expulsão dos jesuítas, delineando-se uma progressiva repressão às atividades das Ordens Religiosas. O governo imperial expede em 1821, uma portaria, suspendendo o noviciado até Segunda ordem e a adesão do Maranhão à Independência, em 1823, torna a Vigararia acéfala. Em 1841, os frades do Pará filiaram-se a Província do Rio de Janeiro.
    Atualmente sua presença no Pará restringe-se ao Mosteiro das freiras carmelitas que vivem em estado de clausura em Benevides distante algumas horas de Belém.

 

A PRESENÇA SALESIANA NO PARÁ

    A Congregação Salesiana ou Sociedade de São Francisco de Sales, fundada por São João Bosco, segundo as Constituições e Regulamentos da mesma é: "uma comunidade de batizados que dóceis à voz do Espírito, intentam realizar numa forma específica de vida religiosa o projeto apostólico do fundador, sendo sinais e portadores do amor de Deus aos Jovens, especialmente aos mais pobres" (Const. 1). É uma sociedade de clérigos e leigos que vivem segundo o carisma do fundador. Encontra-se espalhada pelo mundo todo trabalhando no meio dos jovens através de escolas, obras sociais, paróquias, etc. 
    Os Salesianos chegaram ao Pará no ano de 1930 para ocupar o então prédio do antigo Convento dos Carmelitas Calçados, onde anteriormente já havia funcionado o Colégio Paraense, um internato tradicional da cidade, o Asilo das Órfãs Desvalidas, Hospital Militar, Seminário Menor e precedendo os Salesianos, foram os Irmãos Maristas quem ocupavam o prédio.
    Os Salesianos, ao chegarem ao antigo Convento do Carmo procuraram adaptar as instalações do secular prédio as suas necessidades, sendo que o mesmo encontrava-se em reformas. Através das Crônicas das Atas Salesianas do período nota-se que o esforço contínuo e a luta pela vida do patrimônio que representa o Complexo é preocupação desde os primeiros anos dos salesianos no prédio, como afirma a crônica: "Quanto aos trabalhos do Oratório Festivo e às obras de restauração da Igreja do Carmo, o reverendíssimo Director, reaffirmou que, aos poucos, lentamente embora, vão avançando" (Atas Salesianas 11 de Agosto de 1931). Não obstante o empenho em adequar o prédio existente as suas atividades os salesianos tinham a necessidade de uma estrutura maior e moderna para o nascente colégio, pode-se observar tal fato a partir da narrativa da crônica que diz: "O Reverendíssimo Visitador Extraordinário, Padre Pedro Tironi traçou largos planos e entre esses o do levantamento de um moderno edifício para o Collegio, approveitando, embora, para outros fins o actualmente occupado"( Atas Salesianas 09 de Janeiro de 1932). 
    A leitura atenta e analítica das Atas Salesianas, revelam as grandes dificuldades e os projetos dos Salesianos no Pará no início de sua obra. A preocupação por aquilo que a crônica chama de "remodelagem" do prédio é notória e constante sendo que para isso não hesitaram em buscar inúmeros colaboradores capazes de ser o suposte financeiro para um investimento tão despendioso e de uma grandeza singular. 
    Dentre as alterações feitas pelos salesianos no Complexo estão: a pintura feita no teto, pelo Pe. Angelo Cerri; a colocação de novo piso, pois o primitivo era de tijoleira; modificações nos altares laterais (pintura); a inserção de novas imagens no templo; a construção de um novo prédio acoplado ao Antigo Convento dos Carmelitas, ampliando as instalações para a utilização do colégio.

IGREJA DO CARMO

    A Igreja do Carmo é parte integrante de um dos maiores conjuntos arquitetônicos da Cidade, constituindo uma das relíquias da cidade de Belém. 
    A sobriedade da fachada da Igreja do Carmo está longe de anunciar a opulência de sua decoração interior, marcada principalmente, pela proximidade entre si, das enormes ordens que formam, com o teto em abóbada de berço, uma pronúncia do movimento ascendente, muito peculiar a arquitetura barroca italiana. Ferdinando Galli, o mestre de Landi, publicou em 1711, um tratado de arquitetura civil em que mostra um certo desembaraço no manejo das ordens. Essa lição de desenvoltura diante dos modelos antigos, assimilou a Landi, interpretando-a magistralmente no interior da igreja carmelita.
    O altar-mor da Igreja do Carmo pertence a construção da segunda Igreja, a crônica carmelita diz: " Esta é a parte da Segunda igreja que ficou da demolição feita em 1760 e que está unida ao templo não acabado que a piedade dos fiéis e a santidade dos religiosos erigiram naquela época", dessa forma o seu estilo nada tem a ver com as composições de Landi.
    Esculpido em madeira e coberto pela douração da época, com complementos simétricos de imensos anjos, mísulas antropomorfas, colunas torsas (salomônicas) entremeadas por cachos de uvas, flores e folhas. O altar é decorado com folhas de acanto, volutas, cartelas, etc., que caracterizam o período barroco.
    Os púlpitos, entalhados em madeira, são bastante dourados, em sua origem, com profusão de rocailles (movimentação de linhas curvas e convexas), são de um gracioso barroco rococó, que lembram a anatomia dos púlpitos de Aleijadinho.
    As pinturas dos altares laterais remontam as reformas efetuadas pelos salesianos em pleno século XX.
    O amplo átrio da Igreja contém um oratório de Nossa Senhora de Lourdes, obra dos irmãos Maristas, não tendo nenhuma relação com a obra dos Carmelitas Calçados.
    Algumas imagens que atualmente ornamentam a Igreja do Carmo remontam a época dos Carmelitas, podendo-se destacar as de Nossa Senhora do Carmo e os bustos dos santos carmelitas, a do Crucificado, no primeiro altar-lateral, a de Sant' Ana e a de Santa Madalena de Pazzi, essas imagens são entalhadas de madeira e receberam um fino revestimento de gesso. A imagem de Sant'ana é de estilo português do século XVIII e a de Santa Madalena de Pazzi possui as características do barroco italiano.
    Durante a Cabanagem, grande movimento popular paraense, através do qual os cabanos conseguiram chegar ao poder, a Igreja foi usada como ponto estratégico pela tropa imperial. No entanto, foram descobertos pelos cabanos. Segundo o Professor Ernesto Cruz: "Houve combate. No ardor da luta, inúmeros soldados imperiais refugiaram-se atrás do altar-mor. Cessada a refrega foram descobertos e levados para a rua, sendo uns espangardeados, enquanto outros salvaram-se devido a interferência do Bispo, o virtuoso D. Romualdo de Souza Coelho".